O Pantanal é mesmo um
lugar fantástico e acho que ninguém tem dúvidas disso, pois afinal,
o ciclo das águas revela toda sua intensidade a cada ano,
transformando a paisagem e modificando o hábito de vida de todos
que ali vivem, incluindo plantas, homens e outros
animais.
Passar algum tempo em
uma fazenda no interior do Pantanal é uma experiência que todos
deveriam vivenciar e algumas lembranças deste período com certeza,
levar-se-á para a vida toda. Durante o tempo que estagiei na
Embrapa Pantanal em Corumbá, por diversas vezes tive a oportunidade
de trabalhar na Fazenda Nhumirim, um campo experimental que a
unidade mantém no meio da Nhecolândia.
Pois foi justamente
na Fazenda Nhumirim que tive a oportunidade de conhecer o Sr.
Robertinho, que pode ser considerado realmente um herói. Pois bem,
vou tentar ser o mais breve possível e resumir sua história de
vida.
O Sr. Roberto,
chamado por todos de “Robertinho” sofreu uma grande
perda em sua vida. Em um dia ensolarado, com temperatura elevada
comum para a época, juntamente com outras famílias que viviam na
Fazenda, dirigiram-se até um local, distante cerca de 20 km da sede
da Fazenda, e conhecido como riozinho. Neste local, as famílias
costumavam passar os domingos, organizando um almoço coletivo sendo
muito comum as crianças aproveitarem o tempo tomando banho no
riozinho.
Pois é justamente
neste momento que começa a história triste. O Sr. Robertinho
possuía um filho, na época com 8 anos de idade, que juntamente com
as outras crianças estava tomando banho no local. No vai e vem das
brincadeiras, o filho do Sr. Roberto mergulhou e passado algum
tempo que não vinha mais à tona, uma menina mais velha que brincava
junto começou a gritar. Segundo esta menina, antes de mergulhar ela
segurou na mão do menino, mas havia uma força muito forte puxando o
menino em sentido contrário, ou seja, para baixo d’água.
Quando a esposa do Sr. Roberto percebeu que se tratava de seu
filho, saiu correndo e aos prantos começou a chamar por seu
marido.
O desespero ficou
ainda maior, pois começaram a aparecer na água algumas manchas de
sangue. Este local é conhecido por todos como ser infestado de
piranhas e a presença de sangue e a movimentação na água realmente
indicavam que algo não ia bem.
O Corpo de Bombeiros
do município de Corumbá foi chamado e até que a equipe de resgate
chegou ao local, haviam se passado mais de cinco horas. Quando
então o mergulhador submergiu no riozinho, onde permaneceu por
algum tempo, até retornar à superfície, perguntou às pessoas se
alguém que havia morrido no local há mais tempo? – Todos
responderam que não sabiam nada e então o mergulhador submergiu
novamente para realizar o resgate do corpo.
Foi então ao emergir
do leito do pequeno rio que todos vivenciaram uma das cenas mais
tristes de suas vidas: o mergulhador trazia nos braços o filho do
Sr. Roberto. Como as piranhas danificaram muito o seu corpo, o
mergulhador chegou a duvidar que seria o garoto, mas a sua roupa
ainda presa ao seu corpo, não deixou dúvidas. Uma piranha ainda
permaneceu presa na roupa íntima do menino.
Para o Sr. Roberto a
perda do filho o levou muitas vezes a pensar em tirar a sua própria
vida, segundo ele, pelo fato de não estar presente no local quando
o filho precisou de sua ajuda. Neste dia, após chegar com sua
família ao Riozinho, o Sr. Robertinho foi levar alguns cavalos a
uma invernada onde havia pasto novo. O seu filho pediu para ir
junto, mas Robertinho preferiu que ele ficasse junto com as outras
crianças tomando banho no local aproveitando o dia
ensolarado.
Esta passagem da vida
do Sr. Robertinho foi tema de uma reportagem no Esporte
Espetacular, pois após a morte de seu filho, o Sr. Robertinho
tornou-se um atleta disputando corridas de rua o que, segundo ele,
acabou ajudando-o a superar toda a dor pela perda do
filho.
Quem conhece
pessoalmente o Sr. Robertinho não imagina que tenha levado um golpe
tão duro da vida e mesmo assim, continuou sendo esta pessoa amável
que é. Quando penso que tenho alguns problemas em minha vida,
lembrar da triste história do Robertinho e de sua família acaba
contribuindo muito para ter certeza do quão generosa a vida tem
sido comigo e que realmente não tenho do que me queixar.
No começo deste texto
escrevi que o Pantanal era um lugar fantástico, cheio de histórias,
tristes, felizes e que ao conhecê-las ou vivenciá-las, com certeza,
alguma lição levaremos para a nossa vida. Desta história que
contei, convido você leitor, a tirar a sua própria lição, seja ela
boa ou ruim......
Carlos Rodrigo Lehn
Campo Grande, 31 de Julho de 2009.