Home Data de criação : 09/02/24 Última atualização : 10/01/19 00:29 / 5 Artigos publicados
 

A vida pede socorro em nossas estradas........  escrito em terça 19 janeiro 2010 00:29

Pessoal, neste final de ano tive a oportunidade de rodar aproximadamente 5000 km, passando por rodovias do centro-oeste, sudeste e sul do Brasil. Fiquei extremamente chocado e confesso que um pouco revoltado, com a enorme quantidade de animais silvestres mortos por atropelamento ao longo das estradas. Observei desde espécies mais comuns como Graxains (Lobinhos) - Cerdocyon thous, Ouriço-cacheiro - Coendou villosus, Preás - Cavea aperea, Tamanduá-mirim - Tamandua tetradactyla e até espécies mais raras como Tamandua-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e um cervídeo com dimensões semelhantes ao do veado bororó-do-sul - Mazama nana (Esta identificação prefiro deixar em aberto pois devido ao estado de decomposição prefiro não arriscar com certeza).

Pois bem, o que mais chama a minha atenção é que embora todos os anos milhares e milhares (talvez milhões) de animais silvestres sejam atropelados em nossas rodoviais, nada, extamente NADA, tem sido feito para, ao menos, reduzir o número de atropelamentos. A imensa quantidade de animais que é atropelada todos os anos compremete em muito o potencial genético destas populações e consequentemente a sua sobrevivência. Para que você tenha idéia, em apenas um trecho de 26km da rodovia RS-453, que liga os municípios de Estrela-RS e Garibaldi-RS, observamos 17 ouriços atropelados, o que dá uma incrível média de 0,65 animais atropelados por km de estrada. Se adicionarmos o gavião chimango (Milvago chimango) e o tamanduá-mirim também observados atropelados nesta estrada, a média deste trecho sobe para 0,73 animais/km de rodovia.

Há um certo tempo publiquei em co-autoria com a bióloga Caroline Leuchtenberger, um artigo de mesmo nome deste post, falando sobre o atropelamente de animais silvestres, especialmente na rodovia BR-262 que corta um considerável trecho do Pantanal em Mato Grosso do sul. Neste artigo chamamos a atenção para a necessidade urgente de readaptarmos nossas rodovias, proporcionando aos animais alternativas para que possam transitar em seus hábitats sem que o trânsito coloque suas vidas em risco.

O link para este artigo é o seguinte:

http://www.diarioweb.com.br/vida/edicoes/50/zoom/36.pdf

Forte abraço pessoal e até o nosso próximo post.

Carlos Rodrigo Lehn, Campo Grande 18/01/2010, 20h34.

permalink

...Please, help to save the Planet.....  escrito em domingo 13 dezembro 2009 00:37

Olá Pessoal

Depois de um certo tempo, volto a escrever. E hoje o assunto que escolhi para falar um pouco, reflete o momento que vivemos.

Neste momento, centenas de representantes das nações de todo o mundo estão reunidos em Copenhague, Capital da Dinamarca para decidir sobre o nosso futuro. Está em jogo não só o futuro das gerações que hoje vivem em nosso Planeta, mas sim de todas as outras que ainda estão por vir. O Evento, chamado de COP-15, se tudo correr bem, resultará em um novo acordo para estabelecer metas para a redução das emissões de gases poluentes na atmosfera. Este novo acordo climático substituirá o Protocolo de Kyoto, cuja primeira etapa se encerra em 2012.

Quando ouvimos falar em Acordo Climático, Desenvolvimento Sustentável, Aquecimento Global e todos estas outras palavras que estão na moda a impressão que muitas pessoas têm, é de que nada disso diz respeito às nossas vidas, o que é um tremendo engano.

Tudo o que acontece neste Planeta diz respeito às nossas vidas......exatamente......TUDO! Se a China e os Estados Unidos são responsáveis por mais da metade das emissões de poluentes atmosféricos, isso diz respeito às nossas vidas, mesmo estando a China do outro lado do Planeta!!!!

Você já parou para pensar sobre a possibilidade de contribuir para melhorar a qualidade de vida de nosso planeta?

Muitos especialistas afirmam que um dos maiores desafios hoje da humanidade está em alcançar a Sustentabilidade. E este é o nosso desafio, fazer com que nossas ações do dia-a-dia tenham um caráter sustentável.

É difícil? Sim, com certeza, assim como qualquer mudança.

É possível? Sim, com certeza e com um pouco de esforço verás que os benefícios são muitos.

São ações simples, mas que quando realizadas por muitas pessoas podem fazer muita diferença. Estes são apenas alguns exemplos:

- Não demore muito no banho, assim você economiza água e energia elétrica;
- Procure utilizar o transporte público e deixar seu carro em casa algumas vezes durante a semana;
- Reutilize a água da máquina de lavar roupa para lavar calçadas;
- Faça com que as crianças tenham contato com a natureza desde cedo;
- Evite o consumo de sacolas plásticas, opte sempre por produtos retornáveis;
- Promova uma destinação adequada para os seus resíduos. Resíduos orgânicos podem ser aproveitados para a produção de fertilizante caseiro.

Estes são apenas alguns exemplos, mas que podem fazer uma enorme diferença. Se você acha que não consegue, ao menos tente. Aposto que você é capaz!

"A escolha por atribuir um caráter sustentável às ações do dia-a-dia são individuais, porém os benefícios são sempre coletivos".

Forte abraço e até o nosso próximo post!

Campo Grande, 12/12/2009, 20h32

 

permalink

Tirando lições da vida....  escrito em sexta 31 julho 2009 09:55

O Pantanal é mesmo um lugar fantástico e acho que ninguém tem dúvidas disso, pois afinal, o ciclo das águas revela toda sua intensidade a cada ano, transformando a paisagem e modificando o hábito de vida de todos que ali vivem, incluindo plantas, homens e outros animais.

Passar algum tempo em uma fazenda no interior do Pantanal é uma experiência que todos deveriam vivenciar e algumas lembranças deste período com certeza, levar-se-á para a vida toda. Durante o tempo que estagiei na Embrapa Pantanal em Corumbá, por diversas vezes tive a oportunidade de trabalhar na Fazenda Nhumirim, um campo experimental que a unidade mantém no meio da Nhecolândia.

Pois foi justamente na Fazenda Nhumirim que tive a oportunidade de conhecer o Sr. Robertinho, que pode ser considerado realmente um herói. Pois bem, vou tentar ser o mais breve possível e resumir sua história de vida.

O Sr. Roberto, chamado por todos de “Robertinho” sofreu uma grande perda em sua vida. Em um dia ensolarado, com temperatura elevada comum para a época, juntamente com outras famílias que viviam na Fazenda, dirigiram-se até um local, distante cerca de 20 km da sede da Fazenda, e conhecido como riozinho. Neste local, as famílias costumavam passar os domingos, organizando um almoço coletivo sendo muito comum as crianças aproveitarem o tempo tomando banho no riozinho.

Pois é justamente neste momento que começa a história triste. O Sr. Robertinho possuía um filho, na época com 8 anos de idade, que juntamente com as outras crianças estava tomando banho no local. No vai e vem das brincadeiras, o filho do Sr. Roberto mergulhou e passado algum tempo que não vinha mais à tona, uma menina mais velha que brincava junto começou a gritar. Segundo esta menina, antes de mergulhar ela segurou na mão do menino, mas havia uma força muito forte puxando o menino em sentido contrário, ou seja, para baixo d’água. Quando a esposa do Sr. Roberto percebeu que se tratava de seu filho, saiu correndo e aos prantos começou a chamar por seu marido.

O desespero ficou ainda maior, pois começaram a aparecer na água algumas manchas de sangue. Este local é conhecido por todos como ser infestado de piranhas e a presença de sangue e a movimentação na água realmente indicavam que algo não ia bem.

O Corpo de Bombeiros do município de Corumbá foi chamado e até que a equipe de resgate chegou ao local, haviam se passado mais de cinco horas. Quando então o mergulhador submergiu no riozinho, onde permaneceu por algum tempo, até retornar à superfície, perguntou às pessoas se alguém que havia morrido no local há mais tempo? – Todos responderam que não sabiam nada e então o mergulhador submergiu novamente para realizar o resgate do corpo.

Foi então ao emergir do leito do pequeno rio que todos vivenciaram uma das cenas mais tristes de suas vidas: o mergulhador trazia nos braços o filho do Sr. Roberto. Como as piranhas danificaram muito o seu corpo, o mergulhador chegou a duvidar que seria o garoto, mas a sua roupa ainda presa ao seu corpo, não deixou dúvidas. Uma piranha ainda permaneceu presa na roupa íntima do menino.

Para o Sr. Roberto a perda do filho o levou muitas vezes a pensar em tirar a sua própria vida, segundo ele, pelo fato de não estar presente no local quando o filho precisou de sua ajuda. Neste dia, após chegar com sua família ao Riozinho, o Sr. Robertinho foi levar alguns cavalos a uma invernada onde havia pasto novo. O seu filho pediu para ir junto, mas Robertinho preferiu que ele ficasse junto com as outras crianças tomando banho no local aproveitando o dia ensolarado.

Esta passagem da vida do Sr. Robertinho foi tema de uma reportagem no Esporte Espetacular, pois após a morte de seu filho, o Sr. Robertinho tornou-se um atleta disputando corridas de rua o que, segundo ele, acabou ajudando-o a superar toda a dor pela perda do filho.

Quem conhece pessoalmente o Sr. Robertinho não imagina que tenha levado um golpe tão duro da vida e mesmo assim, continuou sendo esta pessoa amável que é. Quando penso que tenho alguns problemas em minha vida, lembrar da triste história do Robertinho e de sua família acaba contribuindo muito para ter certeza do quão generosa a vida tem sido comigo e que realmente não tenho do que me queixar.

No começo deste texto escrevi que o Pantanal era um lugar fantástico, cheio de histórias, tristes, felizes e que ao conhecê-las ou vivenciá-las, com certeza, alguma lição levaremos para a nossa vida. Desta história que contei, convido você leitor, a tirar a sua própria lição, seja ela boa ou ruim......

Carlos Rodrigo Lehn
Campo Grande, 31 de Julho de 2009.

permalink

Felipe, o Tamanduá do Pantanal....................  escrito em quarta 04 março 2009 23:45

Durante o tempo que morei em Corumbá conheci uma Sra., proprietária de uma Pousada no Pantanal, situada na da Fazenda 4 Cantos. Há mais ou menos dois anos atrás, andando em sua propriedade ela encontrou uma fêmea de tamanduá-bandeira morta, ainda com um filhote preso às suas costas. Imediatamente Dona Cristina, como era conhecida, recolheu o filhote e o levou para sua casa, onde passou então a cuidá-lo, com carinho e atenção maternais. Sem saber explicar por quais razões, o tamanduá foi batizado de Felipe.

Durante mais ou menos seis meses, alimentou-o com mamadeira, utilizando leite de vaca misturado com aveia. A partir dos sete meses de idade, Felipe passou a se aventurar nas proximidades da sede da Pousada de Dona Cristina, mas bastava um latido de cachorro, um trovão ou mesmo a chuva para ele voltar correndo e literalmente pular no colo de sua “Mãe”.

Felipe era um “rapaz” viajado, não ficava somente na pousada com Dona Cristina. Praticamente todo o mês viajava 250 km desde a Pousada até a cidade de Corumbá onde eram comprados os mantimentos para a Pousada e onde Dona Cristina possui também uma residência. Em uma dessas viagens, o carro em que estava o motorista, Dona Cristina e Felipe (é claro) foi parado pela Patrulha Ambiental. O Policial se mostrou irredutível e queria a todo custo recolher Felipe e entregá-lo para o IBAMA. Bastou o policial retirar Felipe do colo de Dona Cristina, para que este pulasse e voltasse correndo para o colo de sua ”mãe”. O carinho que Felipe tinha pela sua “mãe”, fez com que o Policial mudasse de idéia e deixasse que fosse embora para a Pousada com Dona Cristina.

Em uma de suas viagens para Corumbá, o filho de Dona Cristina e Edileuza (uma amiga que conheci na Embrapa/Pantanal) apareceram em nossa casa, por volta das 23h de um domingo, pedindo ajuda, pois Felipe aparentava estar muito doente. Não sei por que ela foi lá em casa? ..... por certo alguém falou que ali moravam alguns Biólogos e ela achou por bem buscar ajuda com a gente. Fomos então eu, Carol e a nossa amiga Arquiteta Ana Paula Badari com Edileuza e o Filho de Dona Cristina até sua casa e lá estava Felipe, deitado em uma cama, doente e parecendo desidratado, mas ainda assim, LINDO! A primeira idéia que surgiu foi aplicar o soro. Como não conhecíamos nenhum veterinário, resolvemos ligar para o nosso amigo e também biólogo Zucco que possuía já experiência por ter participado de estudos com jaguatiricas, tamanduás e veado-campeiro

Tentamos encontrar uma veia na perna traseira esquerda de Felipe, mas o procedimento exigia mesmo muita experiência e delicadeza, para não machucar o nosso amigo. Foi então que Dona Cristina telefonou para uma enfermeira, que na manhã seguinte então se comprometeu em aplicar o soro em Felipe. Durante a noite, Felipe permaneceu dormindo em um quarto com o ar condicionado ligado, o que para Corumbá é plenamente aceitável......

Não se passaram dois dias para que Felipe já estivesse bem e com a corda toda correndo pelo pátio de da casa de Dona Cristina.

Até onde sei, Felipe continua vivendo bem, recebendo todo o carinho de sua “mãe” em uma linda Fazenda no Pantanal. Fotos de Felipe podem ser vistas no site da fazenda: http://www.fazenda4cantos.com.br/

Felipe nunca poderá viver livremente na natureza, pois apesar de ser muito bem cuidado por Dona Maria, não teve os ensinamentos necessários que somente sua mãe natural poderia lhe oferecer. No mundo natural, com raras exceções, as mães são as melhores professoras. Sem suas lições, dificilmente um filho consegue sobreviver!

Nossa próxima história: Pelos confins do Pantanal com Peter Crawshaw........

permalink

De cara com um casal de onças......  escrito em terça 24 fevereiro 2009 23:32

O Pantanal é mesmo um lugar fantástico, onde é possível viver experiências únicas. Na semana do dia 24 de Setembro de 2007 estava no Pantanal participando do monitoramento de um grupo ariranhas no Rio Vermelho, situado no município de Corumbá, em companhia da Bióloga Caroline Leuchtenberger e do seu fiel piloteiro Waldomiro, que prefere ser chamado de Fuscão, um grande conhecedor dos rios do Pantanal. Todo o dia acordávamos por volta das 4h30 da manhã para no máximo às 5 horas já estarmos no rio, pois os animais “acordam” muito cedo.

O rio estava muito baixo e por diversas vezes tivemos que puxar o barco, pois a hélice do motor encostava no leito arenoso do rio. Sem exagero algum, em diversas praias do rio observamos pegadas de onças, o que te faz ter a sensação que a qualquer momento, você encontrará alguma onça deitada em alguma praia ou sentada à margem do rio em um barranco. Encontramos dois pescadores que também são apicultores na região do Passo do Lontra e fomos avisados de que haviam diversos rastros de onças na beira do rio e que com sorte poderíamos avistar alguma onça.

Depois de alguns dias já sem obter muito sucesso com o grupo de ariranhas, no final de tarde do dia 27 de setembro uma cena maravilhosa aconteceu. Uma onça fêmea estava sentada em uma árvore já seca que se debruçava sobre o leito do rio, se estou certo era um Cambará (Vochysia divergens) e quando então tomados de alegria, vimos que ela não estava sozinha, mas sim acompanhada de um macho.  Ainda não havíamos observado nenhuma ariranha no Rio Vermelho aquela semana e no momento que avistamos o casal de onças, adivinhem: uma ariranha também apareceu.

Tivemos a oportunidade de observar estas onças por aproximadamente 50 minutos, em um ritual de acasalamento, no qual o macho por diversas vezes cortejou a fêmea, sem, entretanto, obter sucesso algum. Trata-se de um fato raro e difícil de ser observado na natureza e segundo o Dr. Peter Crawshaw apenas relatado por alguns pescadores da Venezuela. Chamou-me muito a atenção o tamanho do macho, que na tentativa de deixar seu cheiro na vegetação, quebrou com enorme facilidade um galho de uma canjiqueira (Byrsonima orbignyana).

Confesso que na hora fiquei tão emocionado que cheguei a chorar, pois jamais imaginaria que vivenciaria alguma cena de tamanha natureza em minha vida.  Muitos dizem que os Biólogos tiveram a grande sorte de transformar uma paixão em profissão e nesse dia, tive muita certeza disso.

São experiências como estas, que deveríamos experimentar desde crianças, que nos ensinam muito a respeitar a natureza e são a base do que chamamos de Educação Ambiental Não-formal.

Em breve divulgaremos nosso próximo artigo intitulado: Felipe, o tamanduá do Pantanal..... Grande abraço para todos!

Carlos Rodrigo Lehn 23/02/2009, 19h48

permalink